sexta-feira, 28 de março de 2014

Quem é a Jessica?

Quem é Jessica? Há um filme indiano cujo título é, em inglês:"No one killed Jessica", e que fala sobre o assassinato de uma rapariga na Índia por um individuo cujo pai tem poderes políticos e o encobrimento de toda a situação, pretendendo servir de crítica ao que se passa nalgumas regiões (tipo, quase todas) na Índia em relação a estas situações. Mas bom, esta Jessica é outra definitivamente ...

Será? Sendo outra quem é ela? Alguma vez algum de vocês se questionou ao entrar no autocarro quem é o condutor à vossa frente? a pessoa que vos passa os artigos no super-mercado? quem nos vende o bilhete no cinema? Não, mas se calhar a Dona Júlia da mercearia, ou o Senhor Baptista do café já conhecemos. São rotinas portanto que nos aproximam mais de umas pessoas que de outras em função dos nossos interesses ou necessidades. Todavia esta rotina de andanças não me permite dizer quem é a Jessica daquele condutor que a tem tatuada no braço ...

Andando quase todos os dias de autocarro dá para perceber que estes condutores têm vida própria, gostos próprios, atitudes e ideias deles que vão manifestando ou demonstrando todos os dias. As calças e camisa azul, com o colete também ele azul são comuns, mas desde o cabelo longo, tipo metaleiro, à barba à D'Artgnan, passando pelos óculos estilosos, o cabelo grisalho ou ruivo, parando no género masculino ou feminino, existe todo um mundo de Jessicas se me faço entender. Estas bem vivas na sua individualidade, apesar dos traços comuns, com a música alta que ouvem quando entramos no autocarro, seja ela na rádio Comercial, RFM ou Vodafone, ou até talvez uma ligação sua e que permite ao autocarro inteiro (entenda-se passageiros) ouvir os hits do rock ou apenas um qualquer programa cómico daqueles no início da manhã.

Também a forma como abordam os passageiros que não passam o bilhete, esperam por alguém que vem lá ao virar da esquina a correr ou simplesmente seguem viagem para não se atrasar. A forma como escutam a ira das pessoas quando se atrasam ou quando uma carreira é alterada por ordem superior. No fundo são a cara da empresa, como seria de esperar, e o espelho das nossas ilusões ou desilusões, o mais comum, como os atrasos ou faltas de informação em relação a qualquer coisa.

Não consigo então aproximar-me destas Jessicas que me conduzem todas as manhãs ao trabalho, realizando o seu. Da mesma forma que não irei saber quem é a Jessica tatuada na parte interior do braço esquerdo daquele condutor que assim nos informa da existência dela mal entremos no autocarro e nos deparamos, assim que pomos o primeiro pé no primeiro degrau do autocarro. Mas também assim parece não interessar, pois podemos seguir com mais emoção, com mais incerteza também, ao criar um mundo para aquela pessoa que nos leva na sua rotina para qualquer lado que nos importa. Se interessar, pois então que perguntemos a eles quem são as Jessicas da sua vida que com certeza partilham connosco. Como é que sei? Porque apesar de termos todos um pouco do Sr. Baptista ou da Dona Júlia - as rotinas semelhantes aproximam mais as pessoas que as afastam - temos também a vontade de ir mais longe, especialmente num tempo em que não sabemos quem são as Jessicas e todos nos questionamos serenamente do topo do nosso desconforto sem agir a não ser pela fofoca diária e simples que nos impele a mais marasmo.

sexta-feira, 21 de março de 2014

As coisas comuns :)

Olá, quase fim de uma sexta de trabalho né?

Então hoje vou dedicar esta entrada ao George Carlin que muito admiro pela sua comédia e crítica social :)

Pegando numa actuação dele inspirei-me para vos contar hoje sobre coisas comuns, mais umas, que se vão vivendo nos autocarros, mas não só.

Então estão a ver quando estão sentados, tranquilos na vossa viagem e sentem que o olho direito está ... torto? Sim aquele sentimento de que o olho está a fugir e vocês começam a fazer testes a ver se ele está mesmo torto, então começam a brincar com o olho, a olhar para baixo, para cima, para o lado, até que, finalmente, se faz o teste final olhando para o centro fixamente. Nesse momento apercebem-se, porque já não estão só concentrados na preocupação do olho estar torto, que várias pessoas observam com olhar curioso o que estão a fazer. Olhar curioso, ou censurador ou apenas de novidade, mas também reparam que há quem desvie o olhar, ou quem finja que não vos estava a ver desviando eles por sua vez o olhar quando vocês lhes põem os olhos em cima. O problema é que movem demasiado cedo e não naturalmente a cabeça para a janela geralmente (é o que está mais à "mão") só que por azar naquele momento o autocarro está a passar num túnel ou ao lado de um camião cuja única coisa visível (e sem interesse) é o pano lateral do seu contentor ahaha apanhados ou então perceberam que têm um problema no pescoço.

Outra coisa gira, é quando vocês ou a pessoa ao vosso lado está a dormir. Certo? A cabeça cai várias vezes e nós em negação puxamo-la para cima como que a tentar mostrar que não estamos a dormir. Mas de nada adianta, pois ela cai para baixo na mesma. Ontem uma senhora vinha assim ao meu lado, só que com a particularidade de que a cabeça cai para o meu ombro e agora? Se fosse para a frente, tranquilo provavelmente ria-me sem problema. Mas para o meu ombro, porquê a mim certo? E agora? Aquela questão que todos nos perguntamos, acordamos a pessoa? Deixamo-la dormir? Que fazer? No meu caso foi simples, ia sair e ela não se estava a babar. Sim babar, quem não se defrontou já com o babão incontrolável que tem uma poça de baba mesmo no centro da camisa por ir com a cabeça descaída para a frente a dormir? Todos, penso eu e ai risos não faltam, mas também não falta nunca acordar a pessoa, parece que é um estado de situação aceite intrínseca e universalmente por todos os mirones perante aquela pessoa.

Uma vez vinha também descontraído e alguém deu ... um pum. Verdade, no autocarro claro que começou logo tudo, mal o cheiro se fez sentir, a olhar muito seriamente para os lados, tipo avestruzes, com ar muito sério a tentar por um lado mostrar que estão extremamente desagradados e por outro que não foram eles. Estas pequenas coisas que em tudo são iguais quando passamos por elas. A verdade é que se o pum fosse sonoro, audivelmente perceptível, seria fácil identificar o culpado e lá poderíamos todos censurá-lo com o olhar, mas assim, estes silenciosos deixam uma mazela imperceptível na nossa alma, um sentimento de revolta e vingança não correspondido, que com o tempo, e o dissipar do cheiro, lá nos acalmam e permitem continuar a rir com o tipo que se está a babar duas cadeiras à frente e provavelmente foi quem se soltou na inocência do seu dormir. A dormir somos mais facilmente manipulados, mas afinal temos poder de persuasão também.

Há mais coisas, e uma em particular, que me atrai: telemóveis. Todos os temos, aparentemente, e muitos têm um toque definido (geralmente horrível), seja para os amigos, para os familiares, etc. Mas muita gente além dos toques definidos, tem, por alguma razão estranha, um volume de toque ainda mais esquisito que a música do toque em si. É giro ver esta gente a agir, todos, mal ouvem o primeiro acorde, dão um salto na cadeira, lançam-se como um cão a um osso à mala ou ao bolso e a primeira preocupação é atender sem sequer ver quem está a ligar, pois já sabem que o toque está com um volume muito alto. Porque não metem um volume de toque normal? Provavelmente querem acordar o tipo baboso da frente e desviar a atenção do pumliteiro de serviço.

Enfim viagens e viagens, mais histórias há, mas estas são para um fim de semana descansado e de riso.


terça-feira, 18 de março de 2014

A bola da confiança: gira que o mundo vai a girar.

As coisas fantásticas acontecem quando viajamos. Pois bem estas viagens de autocarro são uma viagem ao âmago do que aqui ando a fazer penso eu.

Sem mais demoras, vou falar de coisas fantásticas que me apercebi e vivi durante algumas viagens.

A saber, uma coisa tão simples como uma bola de ténis a descer desde o cruzamento da avenida Duarte Pacheco com a rua Castilho até à rotunda do marquês de pombal no sentido dos carros que sobem. Foi tão interessante ver aquela bola a girar pela rua abaixo com os carros serenos a subir sem grandes manobras e lá ia ela rodando, rodando, ganhando velocidade, ocasionalmente desaparecendo entre as rodas de um aglomerado de carros, escapando a autocarros e fintando motas e lá descia a bolinha verde até ficar encalhada na berma do passeio interior da rotunda. Todos no autocarro acompanharam aquela epopeia com os olhos e a alma aos pulos, será que consegue chegar ao fim? será que vais ser esmagada? Será que ... Todos unidos naquele momento e as conversas de trabalho, a fofoca do dia-a-dia, os desabafos sobre colegas ou chefes, a crise, o sexo, tudo ficou em suspenso naqueles curtos minutos que pareceram tão longos.

Outra coisa em comum são as conversas e a forma de estar de cada um no autocarro, há quem leia, há quem jogue, mas acima de tudo há quem ... converse! Sim, seja ao telefone, seja com a pessoa do lado. Nem todos o fazem é certo e por vezes nem por muito tempo, mas existe sempre a oportunidade para mandar mensagens, fazer chamadas e saber como vão as coisas ou simplesmente falar com o(a) colega que vai connosco ou que entrou uma ou duas paragens à frente. Estas conversas variam tanto, desde jovens adolescentes a falar de sexo e parceiros sexuais; passando pelas senhoras que limpam os escritórios a planificar o dia ou a falar do fim de semana; até ao pessoal da secretária que vai a falar das aplicações ou erros de um qualquer programa. Enfim tudo unido na mesma forma de viver a viagem, por mais curta ou longa que seja.

Finalmente, deixo para o fim o mais importante e que me aconteceu este fim de semana e que é sinónimo de que podemos e devemos confiar, em nós e nos outros. Sai do autocarro numa paragem e comecei a andar, nisto reparei que perdi a minha bolsa com os documentos! Claro que tentei pensar onde ela estava e vasculhei toda a mochila e nada. Lá recriei passo a passo a viagem e cheguei à conclusão que ela tinha de estar no autocarro de onde sai. Pois lá liguei a um amigo com quem estive momentos antes de apanhar o autocarro e ele se prestou a apanhar-me e comigo perseguir o autocarro. Dito e feito, lá fomos, qual bola verde a rolar pela avenida abaixo, a seguir o autocarro sem o ver e a tentar recriar o seu percurso. Contas finais decidimos ir para a paragem final e eu a rezar para que se ele não estivesse lá, lá estivesse a chegar. Procurada e descoberta a paragem final, lá está o autocarro e eu dirijo-me a correr para a porta, o condutor abre e eu explico-lhe a situação. Momento de silêncio, passou-me nada pela cabeça, apenas consegui observar o condutor a sentar-se e a tirar a minha bolsa dos documentos. Quando ma entregou só agradeci mentalmente a todos os passageiros, e ele lá me disse que foi uma rapariga que ao sair lhe deixou a carteira e que eu tive sorte. Ora eu não acho que tenha sido sorte, pois antes, quando estava com esse meu amigo (a quem agradeço imenso a ajuda) paramos com outros amigos para comer uns croissants e como éramos muitos trouxemos para a rua um pacote muito grande cheio e o cartão para o pagar no fim. Ao que reparei que podíamos vir embora sem pagar pois não estava ninguém a controlar-nos e comentei isso com os meus amigos. Ao que alguém respondeu, porque as pessoas confiam em nós para o não fazer. Lá justificámos essa confiança e penso que ela me foi duplamente demonstrada, há quem confie em mim, há em quem eu confie :)

E assim deve ser, como a bola verde vamos rolando fintando obstáculos, ultrapassando outros e por vezes até encalhando ... mas sempre com esta garantia de que o mundo gira e com ele podemos confiar no outro e em nós como opção.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Antes do fim de semana, vem a tempestade.

Vou tentar ser rigoroso na colocação de novas entradas no blogue, só para ser um pouco mais dia-a-dia.

Então hoje a aventura é tranquila mas com emoção, como convém para um primeiro bom fim de semana. Ia eu a caminho do meu destino quando, logo na paragem de origem do autocarro, entram duas senhoras de idade. A primeira muito despachada tenta passar o passe e segue viagem para o seu lugar após essa primeira tentativa frustrada. O condutor, que é dos que sempre que alguém não passa o bilhete ou passe reclama e faz questão de chamar a atenção das pessoas, lá se levanta e começa a chamar a senhora. Esta não está de modas e virando-se para a outra que vinha atrás de si, apenas diz:"vai lá ao condutor que ele quer alguma coisa, merda de bilhetes pá, vai lá, vai lá!" Começa bem a manhã, portanto com uma velhinha reivindicativa aos gritos no autocarro a dizer asneirada logo pela manhã e o condutor sem saber o que lhe dizer, mais uma cena caricata. A outra senhora lá falou com o condutor, que estava um pouco perdido, para tentar perceber o que se passava. Enfim lá falaram e se entenderam por fim. Nisto está um tipo negro vestido todo a rigor, fato, gravata, etc. que se vira e junta-se à festa:" mas ande lá com isto que eu tenho pressa, ficamos aqui a manhã toda agora ou quê?", sem demais comentários ou demoras o condutor lá seguiu viagem aos solavancos por entre os buracos da estrada devido à má suspensão do autocarro. Uma tempestade de sentimentos mais intempestivos portanto esta manhã. Todavia com o sol a acalmar as almas e a minha música lá pus o sorriso do costume para apreciar toda esta panóplia de eventos.

Entre todas as pessoas que entram e saem nesta carreira, é possível fazer um raio-x da sociedade portuguesa, pelo menos lisboeta. Não só porque ela começa no centro e termina nos subúrbios, mas também porque as pessoas que a frequentam têm todas as suas rotinas, a saber: os alunos do secundário que vão para a escola (dentro da cidade) com os seus penteados característicos e roupas fashion ou descaídas depois de fumar um primeiro, ou segundo, cigarro e entram no marquês para não subir a pé até às amoreiras; os alunos da primária que vão para a escola (nos subúrbios) com os pais a acompanhar ou sozinhos e entram após as amoreiras; as senhoras da limpeza que entram nas amoreiras depois do trabalho vespertino e que enchem de conversas, sorrisos e piropos o autocarro; a malta de fato e gravata que vai para as amoreiras ocupar o lugar limpo pelas últimas senhoras e que segue a ler o seu ipod, livro, jornal ou em silêncio e vêm do barco ou da baixa da cidade; os pais que vão deixar os filhos à escola e carregam as suas mochilas ou vão falando com as crianças e entram um pouco por todo o lado; os idosos que vão para as suas rotinas (quaisquer que elas sejam) e os ocasionais turistas ou pedestres que querem encurtar a sua rota e entram em qualquer ponto da carreira entre o seu início e o marquês... Bom muita gente mesmo e com uma grande diversidade. Todavia um dado curioso é que há dias em que a percentagem de mulheres é muito superior à dos homens e outros em que são iguais.

Por último, desejo-vos um bom fim de semana e, contrariamente ao título desta entrada, durante o fim de semana apenas utilizarei os transportes públicos para fins recreativos e não profissionais, como tal regresso segunda-feira apenas! :)

quinta-feira, 13 de março de 2014

Viagem um, em todos os sentidos :)

Olá,

O meu nome é Nuno Cruz e seguindo um rumo qualquer na forma como escrevo o diário, venho contar-vos sobre as minhas viagens no autocarro que apanho para o trabalho. Se for possível vou colocar fotos e caso se vejam numa delas, ou se reconheçam pela descrição, por favor comentem :)

Então, é assim, são quase 3 horas da manhã e claro está, é uma bela hora para se começar um blogue! Ora ai está, curto e conciso, comecemos para não adormecerem.


Vinha eu a caminho de casa, a caminhar, sozinho e a pensar nos pequenos budas da nossa vida (isto não vai ficar moralista prometo), aquelas pessoas que se cruzam connosco e nos trazem boas notícias, nos fazem sorrir com mais energia e nos fazem ser ... enfim, nós. Pois bem vinha eu de uma conversa com um desses pequenos budas que se cruzam comigo e lembrei-me de vir hoje de manhã no autocarro e vir um casal mega fixe, com o filho. Brincavam com um balão, conversavam e acima de tudo sorriam mais que nunca. Depois o pai saiu numa paragem e o filho despediu-se com alto sorriso e a dizer adeus e mandar beijinhos enquanto a mãe o incentivava a isso. Ao que o pai respondeu em esconder-se atrás da árvore, a baixar-se e acenar de repente quando se levantava, a fazerem caretas, completamente no mundo deles a viverem o momento e a viverem-se uns aos outros! Fiquei apaixonado por aquele trio. Ainda mais quando a mãe a brincar com o filho e com o balão, deixou o balão voar para dois lugares mais à frente. Então este homem de cerca de 40 anos, altivo e forte, apanha o pequeno balão roxo e passa-o ao senhor de cerca de 60 e tal anos com óculos e de fato e gravata, um pouco calvo na nuca, que se vira com um sorriso e um balão entre as mãos e o entrega ao miúdo! Imaginem os sérios deste mundo a darem balões à malta, sem qualquer interesse por trás que não o de ser darem um balão roxo, só por que sim.
O tempo discorre e um blogue de gossip quer-se curto, portanto short version, brincadeira a caminho da escola, entre a mãe e o filho, já cerca dos seus 6? 7? 8? anos, qualquer coisa assim. Quando saíram lá tive a oportunidade de agradecer por esta injecção matinal com o entregar-lhes a mochila que se esqueceram. Quando vivemos a coisa assim profundamente é normal estarmos nela durante uns tempos depois de ela ter terminado, não é?

Bem e é assim a minha primeira publicação e como não partilhar mais tantas histórias cómicas ou não que já aconteceram e acontecem e acontecerão nesta viagem diária! E acreditem há mais histórias incríveis, como , huum, ui tanta gente que ilustra o meu mundo, e quiça talvez o vosso?! Vão lendo, vale a pena e talvez a vossa própria viagem seja um tesouro permanente :)

Obrigado pela atenção.